Onze agentes de IA num chat que parece um Slack. Em duas horas e meia eles queimaram 100 dólares de API — e a parte cara não foi trabalho.
Rodo tudo com a mesma pergunta: o que dá pra fazer com cem dólares de tokens? Crédito de API separado do meu plano, recarga de vinte em vinte, painel aberto. Cada recarga é uma decisão de continuar; cinco delas fecham o experimento.
Separar o crédito é o que faz este relato ter conta em vez de impressão. Dessa vez as cinco recargas caíram quase todas na mesma manhã.
block/buzz é um app do Block, a empresa do Jack Dorsey. Baixei no dia 1º de setembro, 22h04.Parece um Slack. É essa a primeira impressão, e ela é útil: barra lateral de canais, DMs, menção com arroba, thread. A diferença é quem está do outro lado. O Buzz hospeda agentes de IA como membros do chat — cada um com persona, memória e pasta de trabalho própria. Você não abre um chat com um assistente. Você entra num Slack onde metade do time é agente.
O nome disso é agent harness: a camada em volta do modelo — quem chama, com qual contexto, quantas vezes, com que ferramentas. Todo mundo fala do modelo. O modelo é a peça barata. O harness é onde o dinheiro vai.
Cada agente acorda quando é mencionado — e é aí que ele custa. Por baixo, o Buzz roda os agentes ora num motor próprio, ora chamando o Claude Code.
Eu não configurei onze personas na mão. Apontei o Buzz para o repositório da minha gestadora — o mesmo onde eu já mantinha, em ficha, quem é cada cadeira da operação: o que decide, o que não decide, com que voz escreve, o que tem permissão de tocar. Isso estava escrito havia meses, como documento, não como configuração.
O app leu esse contexto e instanciou o time a partir das fichas. As cadeiras que existiam no papel viraram membros do chat.
E o trabalho de absorver o resto não foi meu: os agentes que já vêm no template do Buzz — Fizz, Honey e Pollen — fizeram a leitura do repositório, escreveram os rascunhos de persona para as cadeiras da empresa, criaram canais e montaram os perfis. Agente montando agente, com o meu repositório como fonte.
A base de contexto não descrevia o time. Ela era a especificação do time.
É o melhor argumento que eu já vi a favor de escrever contexto direito antes de automatizar qualquer coisa. E também o jeito mais rápido de colocar onze coisas caras pra funcionar ao mesmo tempo.
O time subiu sozinho; a configuração de execução continuou minha. É o que sai quando você liga tudo pra ver o que acontece:
parallelism: 10 em todas — 110 processos vivos.max_turns_per_session = 0. O Buzz não tem teto de turno e não tem botão de orçamento: a documentação expõe timeout e paralelismo, e mais nada.Custo não é preço de token. Custo é cadeiras × contexto × turnos.
| Origem | Chamadas | US$ est. | Observação |
|---|---|---|---|
| agentes nativos do Buzz, as 11 cadeiras | 1.057 | 56–70 | faturava fora de onde eu olhava |
| Claude Code, chamado pelo Buzz | 143 | ~21 | no modelo caro, por herança do padrão |
| véspera, ainda na assinatura | 154 | 0 | carga parecida — foi o que me fez separar o crédito |
Três multiplicadores, em ordem de peso. Modelo: duas cadeiras caras responderam por 41% das chamadas e 45% do gasto. Contexto: cada chamada relê histórico do canal, memória e instruções — as sessões cresciam de 12 mil para 78 mil tokens de entrada, e o pico foi 167 mil. Rajada: às 11h18 todas as cadeiras abriram sessão ao mesmo tempo.
Nada disso foi descoberto depois. Eu estava com o painel aberto vendo a barra andar, e recarreguei quatro vezes depois da primeira. O que eu não tinha era a decomposição — qual cadeira, que hora, por quê. Isso só saiu quando fui ler os logs do motor, já com o orçamento fechado.
Quem me limitou a taxa foi o meu próprio servidor de mensagens. A Anthropic não reclamou uma vez.
Um único post mencionando sete cadeiras acordou nove turnos pagos. Nenhum deles trouxe informação que já não estivesse no canal. Cada agente relia o que os outros tinham acabado de dizer, concordava com uma variação, e mencionava mais alguém. Menção acorda turno. Turno custa.
E o pior não é o preço. É que o sistema não conseguia enxergar isso por dentro. Havia log de chamada e log de custo. Não havia registro de quem disse o quê, a partir de qual insumo, sob autorização de quem. Sem essa trilha, um agente não distingue fato novo de eco do que ele mesmo disse dois turnos atrás.
Um harness sem trilha não é só caro. É um sistema que age no mundo e não sabe contar o que fez.
Em agosto a minha gestadora fechou uma parceria com a RISE | UniCarioca. Foi por essa porta que dois nomes entraram no meu caminho — no mesmo mês do experimento, o que é coincidência, não erudição. Um deles me mandou um livro pessoalmente.
Um dos fundadores do Departamento de Informática da PUC-Rio, com quatro décadas em engenharia de software e sistemas multiagentes. Em 2026 publicou sobre sistemas autônomos com proveniência.
O nó que age: quem fez, a partir de quê, sob autorização de quem.
Tese sobre redes epistêmicas auto-organizáveis — um modelo conexionista para a aprendizagem em redes sociais, e como um padrão de conexões se reforça sozinho até formar o que ele chama de crenças limitantes.
A aresta que sustenta: o que circula, e como endurece.
Um modelou o nó. O outro modelou a aresta. E eu, sem saber, tinha ligado os dois na minha mesa ao mesmo tempo:
Nove turnos sem fato novo é uma rede se auto-organizando até um consenso interno, sem entrada externa. É o fenômeno que um deles estudou. A falta de trilha para detectá-lo é o problema que o outro passou a atacar. Isso é inferência minha, e só minha — nada indica que qualquer um dos dois descreva o próprio trabalho como metade de alguma coisa.
O que eu mudei pra poder ligar de novo. A ordem importa: primeiro o que para sozinho, depois o que reduz, por último o que educa.
parallelism: 10→1, com 2 na cadeira principaluma rajada deixa de abrir dez turnos por cadeiraE o mais importante, que não é configuração: a configuração era minha. O Buzz não fez nada de errado. Ele me deixou fazer. Vou usar de novo — com teto.
Rede que se auto-organiza converge. O que interrompe o reforço tem que vir de fora da rede — e no meu sistema isso já existia, com outro nome: o agente formula, o humano decide.
Eu tratava essa regra como controle de risco. Depois dessa manhã ela virou outra coisa também: o mecanismo anti-eco, a única peça do arranjo que quebra o ciclo. E marcar "dúvida aberta" num documento é a versão barata do mesmo freio — uma ligação que a rede fica proibida de fechar sozinha.
A pergunta que sobrou: numa rede que aprende sozinha, o que impede a convergência?
Se existe resposta formal pra isso, ela é a especificação do freio que todo harness de agentes vai precisar — e que nenhum deles tem hoje. Se você trabalha com isso e tem a resposta, ou tem um pedaço dela, eu quero ouvir.
O próximo experimento tem o mesmo orçamento. Cem dólares. A régua é essa, e ela é o que vai deixar comparar coisas que não se parecem.