W/M Incorporações Artefato · relato de experimento

Queimei 100 dólares no Buzz do Jack Dorsey

Onze agentes de IA num chat que parece um Slack. Em duas horas e meia eles queimaram 100 dólares de API — e a parte cara não foi trabalho.

01

Cem dólares é a minha unidade de experimento.

Rodo tudo com a mesma pergunta: o que dá pra fazer com cem dólares de tokens? Crédito de API separado do meu plano, recarga de vinte em vinte, painel aberto. Cada recarga é uma decisão de continuar; cinco delas fecham o experimento.

Separar o crédito é o que faz este relato ter conta em vez de impressão. Dessa vez as cinco recargas caíram quase todas na mesma manhã.

02

O que é o Buzz.

Não tem nada a ver com a Buzzlabs. A coincidência de nome é infeliz e eu vou ouvir essa pergunta umas cem vezes, então já respondo: block/buzz é um app do Block, a empresa do Jack Dorsey. Baixei no dia 1º de setembro, 22h04.

Parece um Slack. É essa a primeira impressão, e ela é útil: barra lateral de canais, DMs, menção com arroba, thread. A diferença é quem está do outro lado. O Buzz hospeda agentes de IA como membros do chat — cada um com persona, memória e pasta de trabalho própria. Você não abre um chat com um assistente. Você entra num Slack onde metade do time é agente.

O nome disso é agent harness: a camada em volta do modelo — quem chama, com qual contexto, quantas vezes, com que ferramentas. Todo mundo fala do modelo. O modelo é a peça barata. O harness é onde o dinheiro vai.

Cada agente acorda quando é mencionado — e é aí que ele custa. Por baixo, o Buzz roda os agentes ora num motor próprio, ora chamando o Claude Code.

03

Importei um repositório e ele se povoou.

Eu não configurei onze personas na mão. Apontei o Buzz para o repositório da minha gestadora — o mesmo onde eu já mantinha, em ficha, quem é cada cadeira da operação: o que decide, o que não decide, com que voz escreve, o que tem permissão de tocar. Isso estava escrito havia meses, como documento, não como configuração.

O app leu esse contexto e instanciou o time a partir das fichas. As cadeiras que existiam no papel viraram membros do chat.

E o trabalho de absorver o resto não foi meu: os agentes que já vêm no template do Buzz — Fizz, Honey e Pollen — fizeram a leitura do repositório, escreveram os rascunhos de persona para as cadeiras da empresa, criaram canais e montaram os perfis. Agente montando agente, com o meu repositório como fonte.

A base de contexto não descrevia o time. Ela era a especificação do time.

É o melhor argumento que eu já vi a favor de escrever contexto direito antes de automatizar qualquer coisa. E também o jeito mais rápido de colocar onze coisas caras pra funcionar ao mesmo tempo.

04

O que eu deixei ligado.

O time subiu sozinho; a configuração de execução continuou minha. É o que sai quando você liga tudo pra ver o que acontece:

Custo não é preço de token. Custo é cadeiras × contexto × turnos.

05

A conta.

1.057chamadas de API das 9h11 às 11h43
821delas em 23 minutos — pico de 82 por minuto
52 Mtokens de entrada, 48,6 M vindos de cache
~US$ 100o orçamento inteiro, em 2h30
OrigemChamadasUS$ est.Observação
agentes nativos do Buzz, as 11 cadeiras1.05756–70faturava fora de onde eu olhava
Claude Code, chamado pelo Buzz143~21no modelo caro, por herança do padrão
véspera, ainda na assinatura1540carga parecida — foi o que me fez separar o crédito

Três multiplicadores, em ordem de peso. Modelo: duas cadeiras caras responderam por 41% das chamadas e 45% do gasto. Contexto: cada chamada relê histórico do canal, memória e instruções — as sessões cresciam de 12 mil para 78 mil tokens de entrada, e o pico foi 167 mil. Rajada: às 11h18 todas as cadeiras abriram sessão ao mesmo tempo.

Nada disso foi descoberto depois. Eu estava com o painel aberto vendo a barra andar, e recarreguei quatro vezes depois da primeira. O que eu não tinha era a decomposição — qual cadeira, que hora, por quê. Isso só saiu quando fui ler os logs do motor, já com o orçamento fechado.

Quem me limitou a taxa foi o meu próprio servidor de mensagens. A Anthropic não reclamou uma vez.

06

O achado: nove turnos, nenhum fato novo.

1 menção → 9 turnos → 0 fato
O ciclo em tracejado é o que consumiu a manhã.

Um único post mencionando sete cadeiras acordou nove turnos pagos. Nenhum deles trouxe informação que já não estivesse no canal. Cada agente relia o que os outros tinham acabado de dizer, concordava com uma variação, e mencionava mais alguém. Menção acorda turno. Turno custa.

E o pior não é o preço. É que o sistema não conseguia enxergar isso por dentro. Havia log de chamada e log de custo. Não havia registro de quem disse o quê, a partir de qual insumo, sob autorização de quem. Sem essa trilha, um agente não distingue fato novo de eco do que ele mesmo disse dois turnos atrás.

07

O que mais quebrou.

Um harness sem trilha não é só caro. É um sistema que age no mundo e não sabe contar o que fez.

08

Duas referências que apareceram no meio disso.

Em agosto a minha gestadora fechou uma parceria com a RISE | UniCarioca. Foi por essa porta que dois nomes entraram no meu caminho — no mesmo mês do experimento, o que é coincidência, não erudição. Um deles me mandou um livro pessoalmente.

Carlos José Pereira de Lucena

PUC-Rio · professor emérito

Um dos fundadores do Departamento de Informática da PUC-Rio, com quatro décadas em engenharia de software e sistemas multiagentes. Em 2026 publicou sobre sistemas autônomos com proveniência.

O nó que age: quem fez, a partir de quê, sob autorização de quem.

Celso Niskier

Reitor da UniCarioca · doutorado 2010

Tese sobre redes epistêmicas auto-organizáveis — um modelo conexionista para a aprendizagem em redes sociais, e como um padrão de conexões se reforça sozinho até formar o que ele chama de crenças limitantes.

A aresta que sustenta: o que circula, e como endurece.

Um modelou o nó. O outro modelou a aresta. E eu, sem saber, tinha ligado os dois na minha mesa ao mesmo tempo:

Os nós. Agentes, coordenação, proveniência.
As arestas. O que circula e se reforça.
O que eu tinha rodando. As duas coisas juntas, sem trilha pra ver o ciclo fechar.

Nove turnos sem fato novo é uma rede se auto-organizando até um consenso interno, sem entrada externa. É o fenômeno que um deles estudou. A falta de trilha para detectá-lo é o problema que o outro passou a atacar. Isso é inferência minha, e só minha — nada indica que qualquer um dos dois descreva o próprio trabalho como metade de alguma coisa.

09

O regime de dez dólares por dia.

O que eu mudei pra poder ligar de novo. A ordem importa: primeiro o que para sozinho, depois o que reduz, por último o que educa.

sem teto→Limite mensal no console, por workspacerecarregar de vinte em vinte é decisão consciente, mas é freio de mão; o app não tem orçamento, então o teto tem que ser automático e morar fora dele
padrão no modelo mais caro→Modelo médio como padrão de toda cadeiramodelo caro só a pedido, dentro da sessão
parallelism: 10→1, com 2 na cadeira principaluma rajada deixa de abrir dez turnos por cadeira
onze cadeiras no canal→Trêso resto vira tarefa agendada com contexto escolhido, que publica o resultado — publicar não gasta
70 mil caracteres de histórico→Canal arquivado, teto de 900 caracteres por mensagemo que passar disso vira arquivo com link
menção coletiva→Um respondente por mensagem, recibo proibido"ok", "alinhado", "recebido" são o desperdício mais barato de cortar
sem medição→Um script que lê os logs e imprime custo por cadeira e por horasaber qual cadeira e que horas, todo dia

E o mais importante, que não é configuração: a configuração era minha. O Buzz não fez nada de errado. Ele me deixou fazer. Vou usar de novo — com teto.

10

O que eu não posso provar.

Número
O total é medido: crédito separado, cinco recargas de vinte dólares, painel aberto. O que é estimativa é o rateio por origem, por cadeira e por hora — reconstruído a preço de tabela a partir dos logs do motor, que cobram cache como leitura e não enxergam a escrita.
Relato
A exposição de credenciais e os treze canais vêm do relato do próprio agente. Confirmei o que dava pra confirmar de fora.
Leitura
Não li nenhuma das duas obras citadas. De uma eu tenho cinco páginas — capa e índice de um livro de 1970, enviado pelo próprio autor. Da outra, o título da tese e material de segunda mão. A aproximação é de forma, não de matemática.
Escopo
Isto é um experimento de um operador, numa máquina, em duas noites. Não é benchmark, não é comparação de plataformas, e não recomenda nem desaconselha nada.
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O que sobrou.

Rede que se auto-organiza converge. O que interrompe o reforço tem que vir de fora da rede — e no meu sistema isso já existia, com outro nome: o agente formula, o humano decide.

Eu tratava essa regra como controle de risco. Depois dessa manhã ela virou outra coisa também: o mecanismo anti-eco, a única peça do arranjo que quebra o ciclo. E marcar "dúvida aberta" num documento é a versão barata do mesmo freio — uma ligação que a rede fica proibida de fechar sozinha.

A pergunta que sobrou: numa rede que aprende sozinha, o que impede a convergência?

Se existe resposta formal pra isso, ela é a especificação do freio que todo harness de agentes vai precisar — e que nenhum deles tem hoje. Se você trabalha com isso e tem a resposta, ou tem um pedaço dela, eu quero ouvir.

O próximo experimento tem o mesmo orçamento. Cem dólares. A régua é essa, e ela é o que vai deixar comparar coisas que não se parecem.